quinta-feira, 23 de junho de 2016

Artista de Itapetininga cria do lixo peças que chegam a valer R$ 20 mil

Artista largou a profissão de vendedor para se dedicar à arte.
Estanagel usa peças do ferro-velho e de descarte para criar esculturas.


Do lixo ao luxo. Essa expressão faz sentido quando o assunto são as obras produzidas por um artista de Itapetininga (SP), cidade localizada a 170 quilômetros da capital paulista. Do material que vem do ferro-velho, descarte e lixo, o artesão Antônio Carlos Estanagel consegue fazer peças que chegam a valer até R$ 20 mil. Pneus, madeira, ferro, peças de aço e cobre, chaves, placas de carros, relógios, correntes, ferraduras, engrenagens, aros e até mesmo celulares são algumas das matérias-primas utilizadas pelo artesão para a produção de esculturas.

As peças criadas por ele variam de preço de acordo com o tamanho, modelo e tempo de preparação. O leque de produtos é bastante variado: vão desde figuras de seres vivos, como pessoas, cavalos, bois, cães, touros e águias, assim como objetos - guitarras, violinos, motocicletas e aviões.


A última criação do artesão foi um 'cowboy' de dois metros de altura tocando violão. Para concluir a obra, ele levou um mês de trabalho. "Ele é feito com peças de aço e de ferro, como pregos e correntes. O custo desta obra é zero, mas passei horas neste projeto e só eu sei quanto machuquei minha mão. Por isso, uma peça dessa estrutura custa em torno de R$ 20 mil”, afirma.


Além do cowboy, o artista já criou também um guitarrista e sua guitarra, também de dois metros de altura, além de um cavalo com 2,3 metros. O último pesa cerca de 400 kg e foi construído a partir de 90 pneus de motocicletas.


Antônio Carlos se tornou artesão profissionalmente em 2011, após passar 20 anos trabalhando como vendedor externo. O artista conta que durante toda a vida esteve ligado à arte. “Eu já nasci meio artista, meio maluco. Desde criança já me interessava por esse mundo. Passei minha adolescência praticando e brincando com arte, mas, aos 23 anos, me casei e minha esposa engravidou. Então, tive que congelar esse meu lado para poder sustentar minha família. Comecei a trabalhar como vendedor externo e segui nesta profissão até dar um basta. Resolvi sair e tentar a carreira que sempre quis”, explica.

Ele ainda afirma que a decisão causou discórdia entre os amigos e a família. “Quando eu pedi minha demissão meu chefe não entendeu o motivo. Todos diziam que faltavam apenas oito anos para eu me aposentar e que faltava pouco tempo para eu ter tempo livre para ser artesão. Mas, eu não queria ser artesão só depois dos 50 anos. Eu queria ter disposição para trabalhar com a arte. Além disso, eu já estava há 20 anos fazendo a mesma coisa, a mesma função. Dizia sempre o mesmo discurso e ouvia sempre as mesmas respostas, assim como um robô que aperta a mesma tecla”, reflete.



A venda do material, que tem sido feita a partir de exposições ou encomendas, já tem dado resultado financeiro. Segundo ele, a arte está proporcionando a ele um salário melhor. “Como sou autônomo, depois de um semestre costumo fazer a média do salário que receberia como vendedor externo e comparo com o que ganho como artista. E pude comprovar, ultimamente, que estou recebendo uma quantidade maior”, completa.

Durante as exposições, o artesão conta que costuma se surpreender com a reação do público. Uma dessas surpresas aconteceu com a obra denominada Ciborgue – um busto de um homem que tem dentro da cabeça de aço engrenagens e correntes. “Durante uma feira, um homem disse que minhas obras eram interessantes por três motivos: o primeiro deles é o reaproveitamento do material, que por si só já é bacana; o segundo é a prova de que todos nós podemos fazer arte com qualquer coisa; e a terceira é que há diversas mensagens, diversas apresentações de uma mesma peça. Ela não é só bonita, afinal, há diversos modos de entender um homem de ferro que possui engrenagens e correntes no lugar do cérebro. Será que nós, humanos, também somos assim às vezes?”, questiona.

Sobre o reaproveitamento de material, ele conta que coisas que não tem mais serventia para alguns, para ele são fundamentais. “Eu vou até as oficinas e os donos dos estabelecimentos ficam aliviados, pois retiro um monte de peças que estão sempre jogadas, acumulando sujeira e tomando espaço. É assim nas assistências técnicas de relógios e celulares também. Eles juntam sacolas e mais sacolas de matérias para descarte”, afirma.


A ideia do reaproveitamento e reciclagem está tão ligada ao artista que o uso de materiais novos não agrada. “Eu prefiro reutilizar o que já foi usado e que não funciona mais. Por exemplo a argila, eu acho bonito, respeito quem trabalha com ele, mas não é uma coisa que me motiva. Pois a argila é retirada da terra, e eu prefiro usar o que já foi retirado e não pode ser devolvido”, explica.

Para os projetos futuros, o artesão está com o plano de construir um robô. “Estou na fase de planejamento de um robô. Estou estudando e vendo como construir uma coisa dessas. Seria aproximadamente da mesma altura dos homens que já criei, então será um trabalho difícil”, completa.

O artesão já recebeu diversos prêmios. Um deles, em 2012, no 25º Salão de Artes da Associação Comercial de Pinheiros, que integra o calendário oficial da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. A obra vencedora foi a escultura de uma águia construída com pneus de bicicleta. A peça, que tem mais de um metro de altura, chama a atenção também pelos detalhes.